quarta-feira, 12 de novembro de 2008

8

Primeiro sabia-me bem quando não estavas: era o leve desprendimento de uma intima liberdade que se sentia dentro da testa e no fundo da barriga indo, às vezes, até ao sexo. Sabia-me bem o não estar contigo, com tuas coisas; os teus costumes. Sabia-me tão bem aquele estar apenas vazio, de cabelos lentos soltos ao vento de inverno das esplanadas de rua, onde me entretinha no jogo perigoso de lançar a imaginação fértil aos campos do desejo de dias mais quentes e felizes. Larguei-te lentamente, pelo sabor da doçura de um espaço que ficou tão grande e despojado para que ele inesperadamente ali pudesse entrar, conquistar e ficar.
Lutei. Lutei por ti. Só deus sabe quantas vezes repeti o teu nome, nos meus pensamentos, para que em mim ficasses gravado e o dentro do meu corpo e alma voltasse a ser apenas o teu e meu único lugar. Mas nenhuma nota, em cada um desses sons, ficava acima da força magnética daquela imagem dele com um café na mão e um sorriso desprendido a descer a rua entre os meus olhos o meu ombro e o meu corpo.
Um sorriso é sempre um som mais alto que qualquer escorrer de lágrima.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

7 (1º,2º,3º)

Primeiro: a leve sensação de já não seres;
segundo: a dor de te possuir, já sem seres;
terceiro: o já não seres...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

6

Podia ler no teu olhar que a estória ia ser diferente e assim comecei por virar as tuas páginas na esperança de não terminarem palavras que outrora foram promessas.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

5

Dá sempre tudo, tudo. Diz sempre que amas quando amas e logo que sentes que o amas. Di-lo sempre com todo o corpo e toda a alma. Deita-te apenas com quem desejas acordar ou morrer durante o sono e se, por acaso, o sexo estiver no menu dessa noite não o faças só para ti, usa todas as tuas mãos em todo o corpo; entrega órgãos, olhos, boca, pele, cabelos e geme de prazer como se fosse essa a última mulher no teu prato. Dá sempre tudo e diz que a amas, não a tenhas como tua, como um esboço, um projecto em excel a cores e sonhos.
O amor e o dizer que se ama não são um plano para depois, são um acto infinito de conjugação presente...

4

às vezes sorrio com o passado por ele ter sido bom... nada que se compare com este presente alucinante que o destino me deu em forma de homem...

sábado, 24 de maio de 2008

3

Também dentro de mim chovia uma água que lavava os espaços em branco daquela incerteza de te amar ou de amar outro. Eu não resisti ao olhar daquela rua, não resisti a descer a mesma rua no dia seguinte, à mesma hora, para voltar a ver como, uma e outra e mais outra imensa vez, o movimento de uma cidade pode parar de um momento para o outro à medida que caíamos lentamente numa espiral de saliva, chuva e beijos.

2

Sim eu estava nervosa, lá fora chovia e ali estávamos nós a desenhar com os corpos, separados por uma distância incalculável, as palavras que em seguida te diria: tu numa ponta do sofá e eu a justificar demoradamente a realidade inflexível, breve e dura de não gostar mais de ti.
Como tudo começou não sei. Lá fora chovia, eu subia a rua encharcada de uma tarde de chuva que inesperadamente interrompera dias quentes. Estava um frio repentino, um frio de uma frente fria lá fora, somado a um frio novo cá dentro: uma temperatura que diminuía sucessivamente e arrastadamente há duas estações. Era o frio de estar contigo ou não estar ou do ser indiferente ao estar. Era o frio de me saberes tua para sempre e tu sempre o mesmo eterno tu sabendo-me tu e tu já sem sabor e eu já sem saber. Era o chegar a uma casa tua e talvez sexo se me nos apetecer ou de quem faz um jantar que teima em não estar feito, e sempre o mesmo tu, a mesma carne o mesmo peixe ou comer sem sal. Era o frio de quem paga o quê, de quem se apaga primeiro ou de quem apaga primeiro a luz depois de deitar. Era o frio de não seres surpresa ou de estar tudo simplesmente e num morno tanto faz. Lá fora chovia e eu subia a rua, com água a subir por capilaridade pelas calças, com os cabelos que pingavam, com a minha aparente despreocupação, com a puta da falta de paixão a consumir-me e com a falta de mim em ti e sempre tu em mim... Lá fora chovia, estava frio.