sábado, 24 de maio de 2008

2

Sim eu estava nervosa, lá fora chovia e ali estávamos nós a desenhar com os corpos, separados por uma distância incalculável, as palavras que em seguida te diria: tu numa ponta do sofá e eu a justificar demoradamente a realidade inflexível, breve e dura de não gostar mais de ti.
Como tudo começou não sei. Lá fora chovia, eu subia a rua encharcada de uma tarde de chuva que inesperadamente interrompera dias quentes. Estava um frio repentino, um frio de uma frente fria lá fora, somado a um frio novo cá dentro: uma temperatura que diminuía sucessivamente e arrastadamente há duas estações. Era o frio de estar contigo ou não estar ou do ser indiferente ao estar. Era o frio de me saberes tua para sempre e tu sempre o mesmo eterno tu sabendo-me tu e tu já sem sabor e eu já sem saber. Era o chegar a uma casa tua e talvez sexo se me nos apetecer ou de quem faz um jantar que teima em não estar feito, e sempre o mesmo tu, a mesma carne o mesmo peixe ou comer sem sal. Era o frio de quem paga o quê, de quem se apaga primeiro ou de quem apaga primeiro a luz depois de deitar. Era o frio de não seres surpresa ou de estar tudo simplesmente e num morno tanto faz. Lá fora chovia e eu subia a rua, com água a subir por capilaridade pelas calças, com os cabelos que pingavam, com a minha aparente despreocupação, com a puta da falta de paixão a consumir-me e com a falta de mim em ti e sempre tu em mim... Lá fora chovia, estava frio.

Sem comentários: